NAÇÃO E FICÇÃO:

 IMAGENS DE NAÇÃO NA LITERATURA DO QUÉBEC

 

Renato de Mello - UFMG

 

 

Ernest Renan, em sua conferência Qu'est-ce qu'une nation?, feita em 1882 na Sorbonne, discute o que deve e o que não deve ser levado em conta na compreensão, ou melhor, na construção do conceito de Nação. Segundo ele, raça, língua, afinidade religiosa, geografia, interesses e necessidades militares não são elementos suficientes para criar o "princípio espiritual" de Nação. Para tal é preciso um passado em comum, o poder de esquecimento desse passado e o desejo de continuar a vida em comum, ou seja, um "plebiscito diário".

Tentarei responder nesse trabalho a duas perguntas: de que modo a idéia de nação é veiculada pela literatura contemporânea no Québec? Como as concepções de espaço e identidade nacional perpassam, atualmente, o espaço literário no Québec?

Minha proposta é, assim, investigar a concepção de nação veiculada pela prosa literária atual publicada no Québec, a partir da década de 60. Pretendo, a partir daquilo que é chamado de tradição literária e de literatura nacional quebequense, refletir como elas interagem de forma crítica com a noção de nação. Através das formas de representação de imagens nacionais – como concepção ampla de um sentido de nação, como concepção particular de um sentido de Québec – pretendo discutir a questão da identidade/alteridade e da formação de uma literatura nacional quebequense que traduza essa identidade/alteridade.

Em busca de sua identidade, de sua constituição como nação, os quebequenses, a partir da Revolução Tranqüila dos anos 60, promovem uma verdadeira revolução social e política que se refletirá nas artes em geral e especificamente na literatura. Eles buscam a formação de uma literatura nacional que espelhe seu povo. Há, a partir daí, uma constante preocupação em se discutir a realidade retratada como linguagem. Já que a realidade é indissociável das percepções e discursos que se formulam em torno dela, uma abordagem da realidade deve, necessariamente, colocar em questão a maneira como se constroem e se manifestam essas percepções e esses discursos. A própria ficção, à medida que assume o desejo de criar imagens da realidade, coloca em foco seu potencial de referência a um determinado contexto social, político, econômico e cultural. No Québec, a literatura busca se lançar como vetor atuante e crítico no embate de discursos que configuram essa realidade.

O projeto de uma literatura quebequense se concretiza através de uma certa prática de escrita e de múltiplas leituras e releituras. É recorrente o retorno a obras do passado que se reintegram aos textos presentes num projeto de (re)formulação de sua identidade. Desse modo, a tradição se faz sobre uma dupla atitude: um positivismo alimentado pela sociologia e a ciência histórica, e uma intenção totalizante sustentada em mitos e em imaginários. Seja como puro reflexo da sociedade, seja como uma rede de obsessões que criam um mesmo tipo de texto, a unidade fundamental da consciência ou da visão de mundo própria dos quebequenses se dá através de uma correspondência especular entre representação e realidade, e uma de suas formas de expressão é a literatura.

Benedict Anderson propõe-se discutir a nacionalidade e o nacionalismo entendidos como "artefatos culturais"[1]. Assim sendo, define a nação como "uma comunidade política imaginada"[2]. Imaginação está associada à idéia de criação: delimitação de fronteiras finitas, expressão de um desejo de liberdade. Sobretudo, a idéia de nação torna possível a imaginação de uma continuidade, estabelecendo os elos de um passado imemorial com um futuro ilimitado[3].A literatura produzida no Québec se elabora enquanto instituição, mas também como lugar imaginário, ou seja, como uma verdadeira criação histórica que transcende toda a constatação supostamente objetiva. Essa literatura é a elaboração de significações, de símbolos, de mitos no interior de um espaço/tempo específico. É a projeção de desejos, de fantasmas coletivos constitutivos de uma nação.

É possível detectar um elemento recorrente na maneira como a literatura contemporânea quebequense cria imagens de nação, problematizando os mecanismos de identificação coletiva, de compartilhamento de referências – sejam elas referências lingüísticas, formas de percepção do espaço social, concepções de tempo e história, ou modos de constituir tradições. Tal elemento é a problematização e a desestabilização da própria noção de fronteira, do limite que garantiria a unidade e a coesão daquele povo. Na literatura contemporânea do Québec, explora-se freqüentemente a (in)definição das fronteiras, o (des)locamento das referências, o trânsito intenso dos fatores responsáveis pela consolidação de narrativas e de identidade social.

Pierre Nepveu (1999) propõe distinguir três momentos na constituição da literatura quebequense contemporânea. Esses três momentos corresponderiam a três tipos de relação entre o real e o imaginário, constituindo, segundo ele, uma Ecologia do Real[4], enquanto sistema ao mesmo tempo conflitual e organizador das desordens, dos desequilíbrios e dos medos. Esses três momentos definiriam as posições estéticas essenciais da literatura quebequense.

O primeiro momento é a "estética da fundação" em que a literatura nacional nasce, começa, cria-se por intermédio de uma representação da falta, do exílio, da loucura. Esse é o campo estético do paradoxo. O discurso sobre e do exílio funda, a partir da Revolução Tranqüila dos anos 60, o sentido histórico da nova literatura quebequense. O exílio tem a função de determinar o lugar imaginário da literatura quebequense e o campo de sua escritura antes, durante e depois da Revolução Tranqüila. Antes de 1960, era tido como alienação, como falta. Durante e depois dos anos 60: o país, o enraizamento.

O segundo momento é a "estética da transgressão", marcada pela contracultura. De 1968 a 1970, a literatura quebequense se caracteriza pelo fato de que a relação com o real tende a se estabelecer em um contexto de subversão de leis, de normas e de ideologias. Com o tempo, a própria idéia de subversão vai esvaziar seu conteúdo.

O terceiro momento é a "estética da ritualização", que incorpora os dois primeiros momentos e ritualiza a cultura em um mundo sem fundamento, onde o estrangeiro, o estranhamento e a alteridade se apresentam como possibilidades de uma nova ordem. Não apenas reconheço a diferença que o outro representa para mim – a alteridade se manifesta em relação a uma identidade preexistente –, mas também reconheço a diferença que eu represento para o outro – é a alteridade que preexiste. Na reversibilidade do olhar, não há como definir um espaço nacional sem que se perceba que esse espaço é, simultaneamente, estrangeiro.

Desse modo, a consciência de que a identidade social se constrói como narrativa, de que a nação quebequense é, também, uma comunidade imaginada, já pressupõe um questionamento da fronteira que separaria o universo das articulações concretas que configuram o Québec e o universo dos discursos que circulam por ela: um questionamento da cisão real/imaginário. Ao investir nesse questionamento, a literatura do Québec oferece não apenas um olhar reflexivo – veículo de expressão de modos de se conceberem as formações sociais possíveis para a atualidade – como também um olhar auto-reflexivo – que interroga o papel da literatura quebequense na produção, difusão, incentivo ou recusa de tais modos.

Para exemplificar essa literatura reflexiva e auto-reflexiva nacional, gostaria de apresentar, ainda que superficialmente, três obras que condensariam o que foi dito até aqui. Salut Galarnaut!, de Jacques Godbout[5]; Les Belles-soeurs, de Michel Tremblay[6] e L'avalée des avalés, de Réjean Ducharme[7].

Todas as três obras foram escritas na década de 60. Esse decênio é marcado pela Revolução Tranqüila e pela (re)criação de uma literatura nacional "original" que se quer verdadeiramente quebequense nos planos temático, estilístico e institucional. No plano temático, ela registra como um sismógrafo todas as rupturas que a sociedade quebequense vive, seja de ordem religiosa, política, cultural ou social. No plano estilístico, essa Revolução tenta romper com os modelos franceses. Segundo o próprio Godbout, "Le texte national exige une recherche formelle dont le principal objectif est l'invention d'une langue littéraire qui corresponde à l'originalité du modèle national".

A partir daí, vários escritores farão uso de traços lingüísticos especificamente quebequenses. Esses escritores se revoltarão contra uma sociedade que aliena a coletividade à qual eles pertencem e passam a defender o uso do "joual" como a língua oficial do Québec.

Sobre o plano institucional prevalece o conceito de que todo texto quebequense é visto como expressão das necessidades e das aspirações da coletividade quebequense e, conseqüentemente, nacional. Toda obra constitui um fragmento do "texto nacional".

 Salut Galarneau! se inscreve perfeitamente nesses três pontos citados acima. Essa é apenas mais uma das obras fundadoras da literatura quebequense contemporânea. Ela é o reflexo da realidade do povo do Québec. Um texto composto de rupturas familiares, repleto de quebecitudes. Segundo Godbout, Salut Galarneau! "correspondait aux désirs qu'avaient les Québecois d'avoir une histoire heureuse, positive, qui réponde à leur appétit de vie, et non pas à leur appétit de destruction et d'auto-destruction". Salut Galarneau! constesta todas as fronteiras; rompe, desse modo, com uma literatura de "refus de soi".

Les Belles-soeurs, de Michel Tremblay, traz consigo a questão da Revolução Tranqüila. Segundo o sociólogo Fernand Dumont:

 

[La Révolution tranquille] s'est effectuée par opposition au passé. Cette référence négative se reconnaît aussi bien dans les idéologies publiques que dans les conversations quotidiennes. De quel passé s'agit-il? Le passé renié depuis les années 60, c'est moins un ensemble d'événements défunts qu'une mémoire collective. C'est l'image que se donnait d'elle-même la société d'hier qui obsède les Québécois d'aujourd'hui.[8]

 

Desse modo, a realidade não é feita somente de dados objetivos ou empíricos, mas também e, sobretudo, de representações. Tremblay ilustra em sua obra o distanciamento entre a Revolução Tranqüila e a sociedade religiosa, entre a sociedade de consumo e o ideal espiritual. Em Les belles-soeurs, há uma ambivalência ideológica da sociedade quebequense. Vai-se ao Bingo como se vai à missa. A linguagem é popular, a língua o "joual".

L'avalée des avalés, de Réjean Ducharme, incorpora no seio de seu espaço fictício várias referências culturais, históricas ou textuais que tomam uma nova dimensão quando da construção do romance. O título dessa obra já anuncia o grande tema do romance: a sensação de sufocamento, de estar aprisionado em um universo hostil. Todas as instituições –– Igreja, Família, Escola, Estado ­–– são questionadas e rejeitadas, numa mistura de realismo e fantasia.

Desse modo, a literatura contemporânea do Québec está atenta ao fato de seu gesto fundamental – o gesto interrogador das certezas, o gesto de deslocamento das perspectivas – possuir uma dimensão propriamente política. Em um universo em que se difunde a percepção de que as comunidades são imaginadas, de que o componente discursivo integra, de modo indissociável, a vivência da realidade, a literatura quebequense se vê convidada a exercer a prerrogativa de posicionar-se e de divulgar seus posicionamentos. A literatura quebequense pode, sobretudo, se opor a certos modos de imaginar identidades – modos que acarretam ações de intolerância, que se erguem através do subjugo ou do extermínio da alteridade. Pode mostrar como as narrativas de nação freqüentemente se alimentam de discursos que pregam a exclusão da diferença.

 

A contundência emotiva da ficção, sua capacidade de gerar imagens que impressionam, pode atuar como recusa à indiferença pretensamente justificável do real, ao caráter falsamente consensual de determinadas ações concretas. A literatura do Québec explicita o absurdo de escolhas calcadas em discursos que outorgam um caráter indiscutível, amplo e perene a interesses que são, na verdade, circunstanciais e restritos. Discursos totalizantes, discursos grandiloqüentes que autorizam o desrespeito ao nível mais elementar no qual as imagens de identidade se constituem: o corpo na sua integridade efêmera.

O que é necessário para se repensar o conceito de nação é, portanto, uma mudança de categorias. Tal mudança se efetua quando se percebe que o controle da narrativa que constitui o sentido de nacional não é monológico, quando a nação passa a ser encarada como conjunto heterogêneo de significações ambivalentes. Bhabha assume a postura de tomar a nação como portadora de limiares de sentido que devem ser atravessados, rasurados e traduzidos no processo de produção cultural. O descentramento crítico daí resultante contribui enormemente para o avanço conceitual das discussões sobre a idéia de nação. Melhor, portanto, seguir a trilha fornecida pelo autor quando sugere a elaboração de uma teoria da diferença cultural.[9]

O espaço da nação pode ser visto não apenas como a delimitação de fronteiras externas, mas como um espaço marcado, fundamentalmente, pela «liminaridade interna »[10]. O caráter uno da identidade é cindido pela diferença que se instala internamente. As margens da nação não estão do lado de lá de suas fronteiras, mas no seu próprio cerne. As narrativas pedagógicas que se fundam em limites totalizadores se vêm confrontadas à contranarrativas que explicitam e rasuram esses limites.

Assim, a ameaça da diferença deixa de ser apenas uma questão relativa a um outro povo (ou a uma outra identidade, a uma outra nação) e passa a ser uma questão relativa à própria outridade do povo-enquanto-um[11], da identidade como heterogeneidade, da nação tomada como conjunto antagônico de significações.

Investigar a nação quebequense a partir de sua margem implica a quebra do binarismo que opõe o dentro e o fora, identidade e alteridade, nacional e estrangeiro. Ao se pensar que o outro nunca está fora ou além de nós, mas que emerge forçosamente dentro do discurso cultural, inaugura-se uma perspectiva (inter)nacional. Ao se considerar a nação como espaço de circulação de narrativas, cria-se uma perspectiva (trans)nacional.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

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TREMBLAY, Michel. Les belles soeurs. Montréal: Leméac, 1972.



[1]ANDERSON. Nação e consciência nacional, p. 12.

[2] Idem. p. 14.

[3] Cf. Idem. p. 19-20.

[4] NEPVEU, Pierre. L'Écologie du réel. p. 212.

[5] GODBOUT, Jacques. Salut Galarneau! Boréal,1967

[6] TREMBLAY, Michel. Les Belles-Soeurs. Leméac, 1968.

[7] DUCHARME, Réjean. L'avalée des avalés. Boréal, 1966.

[8] DUMONT, Fernand. Les Sort de la culture, p. 238-239.

[9] ibid., p. 1-7.

[10] BHABHA. DissemiNation: time, narrative, and the margins of the modern nation, p.300.

[11] Ibid., p. 301.